O choro de Courtois e o fim de uma era: a geração dourada da Bélgica se despede nas quartas

A eliminação para a Espanha por 2 a 1 não foi só mais uma queda. Com Courtois saindo em lágrimas e De Bruyne mirando a aposentadoria, a geração que reinou no topo do mundo encara o fim da linha.

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Do topo do mundo ao fim da linha

A Bélgica caiu nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026, e desta vez a derrota tem gosto de despedida. Foi 2 a 1 para a Espanha, no SoFi Stadium, em 10 de julho. O placar, porém, conta só metade da história.

Para entender o peso da noite, é preciso voltar a setembro de 2018. No dia 20 daquele mês, os Diabos Vermelhos assumiram o topo do ranking da FIFA e ficaram por lá quase quatro anos, o terceiro reinado mais longo da história atrás de Espanha e Brasil, como lembra a própria entidade. Poucos meses antes, aquele time encantado terminara em terceiro na Rússia. O mundo aos pés.

De lá para cá, a curva só desceu. Nas quartas da Euro 2020, um 2 a 1 para a Itália, com gol de Barella e pênalti convertido por Lukaku. Na Copa de 2022, a queda veio ainda na fase de grupos, a primeira desde 1998. Na Euro 2024, um 1 a 0 para a França nas oitavas. E agora o adeus nas quartas, diante da mesma Espanha que um dia destronou. Quatro torneios, quatro decepções, cada uma um degrau abaixo da anterior.

As lágrimas de Courtois

Se um lance resume o fim do ciclo, é a saída de Thibaut Courtois. Substituído aos 71 minutos, o goleiro de 34 anos deixou o gramado chorando. Não foi drama de ocasião. "Cobrei um tiro de meta e senti muita dor no quadríceps... No fim, o treinador decidiu me tirar", explicou depois, em relato da AP. A ESPN tratou o caso como uma lesão muscular na coxa.

O técnico Rudi Garcia não fugiu do tema. "Desde o começo da Copa, eu não queria em campo jogadores que não estivessem 100%, e esse era o caso do Courtois hoje", disse. Perder o arqueiro, para ele, foi "um golpe duro de aguentar". Garcia ainda revelou que Courtois teria cogitado tirar um ano de folga da seleção, sem comunicar a decisão à federação nem aos companheiros.

Um capitão simbólico saindo de campo em prantos, machucado, já pensando em se afastar. É difícil imaginar retrato mais eloquente para o encerramento de uma era.

A conta de uma geração

Os números da idade não perdoam. O miolo da geração de ouro chegou a esta Copa carregando estrada: Axel Witsel (37 anos, 136 jogos), Kevin De Bruyne (35, 117), o próprio Courtois (34, 107) e Romelu Lukaku (34, 124), segundo o Opta Analyst. Craques que sustentaram a seleção por uma década e que, agora, encaram o relógio, sem nunca terem levantado um grande título.

De Bruyne, o maestro, já avisou. Em setembro de 2024, contou ao Het Laatste Nieuws que "provavelmente" penduraria as chuteiras pela seleção depois da Copa de 2026, embora tenha emendado um "vamos ver" e frisado que nada estava fechado. O roteiro ecoa o de Eden Hazard, que anunciou a aposentadoria internacional em 7 de dezembro de 2022, logo após a eliminação no Catar. "Decidi pôr um ponto final na minha carreira internacional", disse o ex-capitão, antes de cravar: "A próxima geração está pronta."

O futuro já entrou em campo

E talvez Hazard tivesse razão. No meio da tristeza, esta Copa deixou pistas de que a Bélgica não vai virar pó.

O gol de empate contra a Espanha saiu da cabeça de Charles De Ketelaere, aos 41 minutos do primeiro tempo, depois de os espanhóis abrirem o placar com Fabián Ruiz. O cabeceio interrompeu uma sequência de 649 minutos sem sofrer gols do goleiro Unai Simón, de acordo com o Opta. A virada só veio no apagar das luzes, aos 88, com Mikel Merino, em campo havia menos de dois minutos, aproveitando um rebote mal afastado por Senne Lammens após finalização de Pau Cubarsi.

Doeu. Mas repare na lista dos que estão chegando: Jeremy Doku, o próprio De Ketelaere, Amadou Onana e o jovem Matias Fernandez-Pardo. Foi esse grupo que ajudou a Bélgica a fechar o torneio com 13 gols, o segundo melhor ataque da competição, atrás apenas da França, segundo o Opta e a ESPN. O talento não é promessa distante, é presente.

Resta, claro, a pergunta que sempre acompanha uma reconstrução: quem vai comandar a obra? A Bélgica terá de definir o rumo do banco e a identidade do novo ciclo, ciente de que a matéria-prima está ali, à espera de um projeto à altura do que essa base promete.

Por isso a eliminação, por mais dolorida que seja, não precisa soar como funeral. A geração que reinou no topo do mundo se despede sem a taça que sonhou erguer, mas deixa a chave na fechadura para quem vem. A era dourada acabou. O que a Bélgica vai fazer com a próxima, essa é a pergunta que sai do SoFi Stadium junto com as lágrimas de Courtois.

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