Bouaddi troca a França por Marrocos e fica atrás só de Pelé nas quartas

Nascido perto de Paris, o meio-campista de 18 anos do Lille virou de casaca semanas antes da Copa e se tornou o segundo mais jovem a começar uma quartas de final de Mundial, atrás apenas de Pelé. Contra a própria França, caiu por 2 a 0, mas sem um pingo de arrependimento.

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Aos 18 anos e 280 dias, Ayyoub Bouaddi entrou em campo em Foxborough, no estado de Massachusetts, para começar a quartas de final entre Marrocos e França. Do outro lado estava o país onde ele nasceu, cresceu e se formou. O mesmo país que, poucos meses antes, o tinha deixado partir.

Havia algo de roteiro de cinema ali. O garoto que a França não segurou, agora de vermelho e verde, tentando tirar a própria França da Copa. Um enredo que ninguém precisaria inventar.

Só um jogador foi mais jovem ao iniciar uma quartas de final de Copa do Mundo: Pelé, com 17 anos e 239 dias, contra o País de Gales, em 1958. É essa a companhia que o menino de Creil arrumou de uma vez, segundo a WION News. Não é pouca coisa dividir uma linha de estatística com o Rei.

O menino de Creil

Creil fica a cerca de 50 km ao norte de Paris. É de lá que vem a família Bouaddi. O pai, Hassan, ex-jogador de handebol, hoje é vice-prefeito da cidade, como contou a Al Jazeera. Uma família de esporte e de vida pública, fincada em solo francês.

Ayyoub nasceu e se criou por ali. Escola francesa, infância francesa, sotaque francês. Nada disso, porém, o prendeu à seleção dos bleus quando chegou a hora de decidir. A raiz falou mais alto.

Do sub do Lille a um recorde europeu

O caminho começou nas categorias de base do Lille. A estreia entre os profissionais veio cedo, muito cedo: aos 16 anos e 3 dias, numa partida da Conference League. Com isso, Bouaddi se tornou o jogador mais jovem a atuar em uma competição europeia de clubes, informou a TNT Sports.

Guarde o número: 16 anos e 3 dias. Enquanto a maioria dos garotos da idade ainda sonhava com a base, ele já pisava num gramado de torneio continental.

O talento não passou despercebido dentro de casa. Em dezembro, o meio-campista assinou um novo contrato com o Lille, válido até 2029.

A troca de camisa

A decisão que mudou tudo veio na reta final do ciclo. Bouaddi pediu a mudança de seleção, da França para Marrocos, e a Fifa aprovou a troca em maio de 2026, poucos meses antes de a Copa começar, conforme TNT Sports e Al Jazeera.

Elegível pela origem da família, ele preferiu vestir o vermelho e verde dos Leões do Atlas a esperar por uma vaga na poderosa seleção francesa. Uma aposta e tanto para quem tinha acabado de completar a maioridade. Muitos teriam aguardado o chamado dos bleus. Ele não quis esperar.

Atrás só de Pelé

Na Copa, virou peça fixa. Bouaddi começou como titular em cinco dos seis jogos de Marrocos no torneio e chegou às quartas embalado na campanha histórica da seleção africana. Um adolescente no meio de um time que fez o continente parar, e não estava ali para completar número: jogava para valer.

E o destino tratou de fechar o círculo. Como destacou a ESPN, coube justamente a ele encarar a seleção que havia recusado. Contra a França, em 9 de julho, Bouaddi ficou 62 minutos em campo antes de dar lugar a um companheiro. Marrocos perdeu por 2 a 0 e deu adeus ao Mundial, segundo a NPR.

Sem arrependimentos

No fim do jogo, veio a pergunta inevitável. E a resposta saiu sem rodeios. "Nenhum arrependimento. Estou muito orgulhoso de ter escolhido Marrocos", disse Bouaddi, em fala publicada pela Yahoo Sports. "Foi o coração que decidiu. Estou aqui e tenho orgulho de representar Marrocos."

Aos 18 anos, ele já carregava o peso da escolha que fez. Trocar a seleção do país onde nasceu por outra, semanas antes da maior competição do planeta, não é decisão de quem hesita. O discurso de cabeça erguida, mesmo na eliminação, disse muito sobre o tamanho da convicção.

O futuro, esse, promete cifras altas. Olivier Letang, presidente do Lille, afirmou que Bouaddi vale mais do que o clube gastou neste verão europeu nas contratações de Elliot Anderson e Sandro Tonali, segundo a TNT Sports. A renovação de dezembro, válida até 2029, ganha agora outro peso.

Aos 18 anos, com contrato longo e uma Copa do Mundo no currículo, o menino de Creil volta ao Lille sabendo exatamente o que quer. Perdeu para a França, é verdade. Mas saiu de campo com a certeza de ter feito a escolha certa. O resto da história ainda está por ser escrito.

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