Um em cada quatro canadenses parou o que estava fazendo para assistir. Guarde esse número. Num país que mede o inverno pelo calendário da NHL e ensina a criança a patinar antes de ensiná-la a andar, um em cada quatro é quase uma revolução silenciosa.
Anfitrião da Copa do Mundo de 2026 ao lado de Estados Unidos e México, o Canadá viu a campanha terminar nas oitavas de final, com uma derrota por 3 a 0 para o Marrocos, em Houston. O placar dói. Mas contar essa história pelo placar seria um erro. A seleção caiu e, mesmo assim, deixou para trás um país que não era o mesmo de antes de a bola rolar.
De 122º ao mata-mata, a virada de um país inteiro
Comece pelos números frios, porque eles explicam a reviravolta melhor do que qualquer discurso. A campanha de 2026 foi a primeira da história do programa canadense a chegar ao mata-mata. Foram duas vitórias e nove gols no torneio, segundo a Sports Illustrated.
Agora, a comparação que dá a real dimensão do salto: somando todas as Copas entre 1986 e 2022, o Canadá não havia vencido uma única partida. Nenhuma. A seleção desembarcou em 2026 na 30ª posição do ranking mundial, depois de ter amargado o 122º lugar num passado nada distante. A distância entre esses dois números é a mesma que separa um figurante de um adversário que assusta.
Onze milhões de olhos na mesma tela
O impacto não ficou preso ao gramado. De acordo com dados da TSN citados pela Sports Illustrated, as transmissões da fase de grupos e da Rodada dos 32 ultrapassaram 11 milhões de telespectadores. Num país de pouco mais de 40 milhões de habitantes, a conta é simples e impressiona: é como se o vizinho de porta, o colega de trabalho e o primo que só aparece no Natal tivessem ligado a mesma tela no mesmo instante.
Um em cada quatro canadenses acompanhou algum trecho da caminhada. Esse não é o público de uma modalidade de nicho, espremida entre o hóquei e o beisebol. É o retrato de uma paixão nacional nascendo em tempo real, jogo a jogo, gol a gol.
Audiência assim não some quando soa o apito final. Ela vira camisa nova no varal, pelada no fim de semana, conversa de escritório na segunda-feira. É o tipo de herança que uma Copa em casa deixa quando o time corresponde, e o time canadense correspondeu.
A campanha que rendeu no coração e no caixa
Porque rendeu nos dois. Só por alcançar as oitavas, o Canadá embolsou US$ 18,5 milhões em premiação da Fifa, conforme a Sports Illustrated. Longe das câmeras, a campanha de arrecadação 'Canada Rising', da Canada Soccer Foundation, superou a meta de US$ 25 milhões com 18 meses de antecedência, segundo o Team Canada.
O reflexo chega até o balanço da federação. A Canada Soccer projeta um raro superávit de US$ 4,61 milhões para 2026, puxado diretamente pelo desempenho no Mundial. Para uma entidade habituada a fazer conta apertada, ver o sinal de mais na frente do número é quase um capítulo à parte.
Dinheiro, no futebol, costuma virar estrutura: base, categorias de formação, comissão técnica, viagem. O superávit de 2026 é a promessa de que o pico da campanha pode virar alicerce, e não apenas lembrança.
Davies, Eustaquio e a pergunta de 2030
A gestão já colocou fichas no futuro. O técnico Jesse Marsch conquistou a renovação de contrato até o ciclo da Copa de 2030, sinal claro de que o projeto não será desmontado no dia seguinte à eliminação.
Nem tudo, porém, seguiu o roteiro. Alphonso Davies, o principal nome da seleção, esteve em campo por apenas 15 minutos ao longo de cinco jogos, ainda se recuperando de uma lesão na coxa. Quem puxou a responsabilidade foi o vice-capitão Stephen Eustaquio, autor do gol da vitória sobre a África do Sul, de acordo com o Team Canada.
A queda diante do Marrocos, com dois gols de Ounahi no segundo tempo e o terceiro de Rahimi no fim, encerrou o sonho de 2026. Encerrou também, de vez, a velha piada de que o Canadá seria só um país de hóquei. Em 2030, a seleção volta a uma Copa sem o empurrão de ser anfitriã. E aí mora a pergunta mais difícil de todas: a paixão que explodiu neste verão veio para ficar, ou foi só o calor de uma festa em casa?



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