O placar marcou 2 a 0 sobre o Marrocos, e a França carimbou a vaga na semifinal. Só que, para Didier Deschamps, aquela noite guardava uma segunda história, escrita nas entrelinhas dos números. Sem alarde, quase sem comemorar, o comandante francês reescreveu o livro de recordes das Copas do Mundo. E deu mais um passo rumo a uma despedida que ele próprio já havia anunciado.
A noite em que virou o mais vitorioso
Recorde de técnico não vem embrulhado em golaço. Vem devagar, jogo a jogo, e de repente já é história. Foi assim com Deschamps.
Aquela partida foi a 25ª dele à frente de uma seleção em Copas do Mundo, número que igualou a marca do alemão Helmut Schön, segundo levantamento do Opta. Em quase um século de Mundiais, ninguém dirigiu tantos jogos.
O dado que mais pesa, porém, é outro. Foi a 20ª vitória de Deschamps como treinador em Copas, e nenhum comandante havia chegado antes a esse patamar. Ele é o primeiro a furar a barreira dos 20 triunfos.
Junte a isso o décimo jogo de mata-mata vencido no comando, também o maior número já alcançado por um técnico na história do torneio, de acordo com o Opta. São conquistas de regularidade, não de fogos de artifício, e talvez por isso demorem tanto a cair.
A classificação ainda rendeu um bônus coletivo. Com ela, a França chegou à sua oitava semifinal em Copas, igualando o Brasil, dono do recorde de presenças entre os quatro melhores do mundo.
Quatorze anos, uma seleção só
Para medir o tamanho desses números, é preciso voltar a 2012. Foi o ano em que Deschamps assumiu a seleção francesa, um cargo que costuma queimar quem o ocupa em duas ou três temporadas. No futebol de seleções, onde uma eliminação precoce basta para derrubar um projeto inteiro, durar quatorze anos já é quase um recorde por si só.
Ele ficou. Atravessou gerações inteiras de jogadores sem largar o timão e virou o técnico mais longevo da história dos Bleus. No caminho, ergueu o título do Mundial de 2018, chegou à final de 2022, perdida nos pênaltis para a Argentina, e levantou a Liga das Nações de 2021, conforme registram Al Jazeera e FIFA.
Título mundial, vice de Copa e um troféu continental. Poucos comandantes montaram algo tão sólido fazendo tão pouco barulho.
A companhia de Zagallo
Existe um clube pequeno demais para caber mais gente. Deschamps é um dos apenas três homens a levantar a Copa do Mundo como jogador e, depois, como técnico, segundo a FIFA. O primeiro nome dessa lista dispensa apresentações no Brasil: Mário Zagallo. O segundo é o alemão Franz Beckenbauer. O terceiro atende por Didier.
Em 1998, com a braçadeira de capitão, ele ergueu a taça em casa, diante da própria torcida. Vinte anos depois, em 2018, repetiu o feito, agora de terno e do banco de reservas. Campeão em campo, campeão à beira do gramado. Simetria rara nesse esporte.
O adeus que ele mesmo marcou
Nada disso é boato de bastidor. Em janeiro de 2025, em entrevista à emissora francesa TF1, o próprio Deschamps avisou que deixaria o cargo depois da Copa de 2026, fechando um ciclo aberto lá em 2012. "Vai terminar por aqui porque precisa terminar em algum momento. Está claro na minha cabeça", disse, em fala reproduzida pela Al Jazeera.
O que vem depois é bem menos nítido. Deschamps já deu a entender que não pretende pendurar a prancheta de uma vez. Questionado sobre o futuro, teria dito que "não vou me privar de nada", segundo republicação do Yahoo Sports, que trata a informação com cautela. Fora as próprias palavras do treinador, nada está confirmado sobre o que ele fará a seguir.
Por ora, resta o presente. A França está na semifinal, o adversário ainda por definir, e Deschamps segue contando os jogos que faltam para o ponto final. Quantos serão, só o mata-mata dirá. O que já se sabe é que cada um deles carrega o peso de uma última vez.


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